Sexta-feira, 13 de junho de 2025 · Edição nº 4.821
O Jornal do Interior Brasileiro · Desde 2008
Agronegócio · Reportagem Especial

Soja no Cerrado: produtores do Mato Grosso enfrentam a pior seca em três décadas e buscam alternativas

A estiagem prolongada que assola o Centro-Oeste desde outubro reduziu a estimativa de safra em 18%. Cooperativas apostam em tecnologias de irrigação, mas o custo é proibitivo para pequenos produtores.

Por Antônio Rezende · Correspondente em Cuiabá · Publicado em 13 de junho de 2025 · Atualizado em 14 de junho de 2025 · 9 min de leitura

Osvaldo Teixeira, 58 anos, produtor de soja em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, não se lembra de uma seca assim. "Em 1994 foi ruim. Em 2016 foi pior. Mas isso aqui está diferente", diz ele, olhando para um talhão que deveria estar verde e está amarelo. "A chuva não veio em outubro, não veio em novembro. Quando veio em dezembro, foi pouco e mal distribuído."

O relato de Osvaldo se repete em dezenas de municípios do Centro-Oeste. A estiagem que começou no início da estação chuvosa de 2024/2025 se estendeu de forma incomum, afetando as fases críticas de desenvolvimento da soja — floração e enchimento de grãos — em boa parte do Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revisou para baixo sua estimativa de safra de soja no Brasil em 18% em relação à projeção inicial. O Mato Grosso, maior produtor nacional, deve colher cerca de 32 milhões de toneladas — contra os 39 milhões esperados no início da temporada.

O custo da seca

Para produtores que fizeram contratos de venda antecipada — prática comum no agronegócio para garantir preço e financiamento —, a seca cria um problema adicional: como entregar o que foi vendido quando a produção caiu? Alguns terão que comprar soja no mercado para honrar contratos, absorvendo a diferença de preço.

Pequenos e médios produtores, sem reserva financeira para absorver um ano ruim, estão em situação mais delicada. A Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso (Famato) estima que cerca de 3.200 produtores com menos de 500 hectares podem precisar de renegociação de dívidas com bancos e cooperativas.

"O grande produtor aguenta um ano ruim. O pequeno não tem essa gordura. E é o pequeno que mais precisa de apoio — e que menos recebe." — Presidente da Cooperativa Agrícola de Lucas do Rio Verde

As alternativas que surgem

Algumas cooperativas estão acelerando a adoção de sistemas de irrigação por pivô central, que permitem produzir mesmo em anos de seca. O problema é o custo: um sistema de pivô para 100 hectares custa entre R$ 800 mil e R$ 1,2 milhão, fora a energia elétrica, que representa 30% a 40% do custo operacional.

Para produtores com menos de 200 hectares, o investimento raramente se paga. Há linhas de crédito do BNDES e do Pronaf, mas os processos são lentos e as garantias exigidas são altas.

Outra alternativa que ganha espaço é a diversificação de culturas. Produtores que plantam milho safrinha, sorgo ou algodão além da soja têm mais resiliência em anos de seca, porque as culturas têm ciclos e necessidades hídricas diferentes. Mas a transição exige conhecimento técnico e capital que nem todos têm.

Osvaldo Teixeira já tomou a decisão. "Ano que vem vou plantar 30% de milho. Não dá pra depender só de uma cultura num clima que está ficando cada vez mais imprevisível."

Antônio Rezende Correspondente em Cuiabá · InlineBR

Jornalista especializado em agronegócio e desenvolvimento regional. Cobre o Centro-Oeste há 15 anos. Nasceu em Rondonópolis e conhece o Cerrado de perto.

← Voltar para Notícias