Dengue no interior: municípios sem médico especialista enfrentam surto sem estrutura para responder
Enquanto as capitais concentram os recursos de combate ao Aedes aegypti, cidades com menos de 20 mil habitantes dependem de agentes comunitários sobrecarregados e de insumos que chegam com semanas de atraso.
Em Jataí, no sudoeste de Goiás, a unidade básica de saúde do bairro Jardim Primavera atende 4.200 famílias. Tem dois médicos generalistas, três enfermeiros e oito agentes comunitários de saúde. Não tem infectologista. Não tem laboratório próprio. E desde fevereiro, enfrenta um surto de dengue que já registrou 847 casos confirmados e dois óbitos.
"A gente trata o que consegue aqui. Quando o caso é grave, manda para Goiânia. Mas Goiânia fica a 320 quilômetros. Nem sempre dá tempo", diz a enfermeira-chefe da unidade, que pediu para não ser identificada por medo de represália da gestão municipal.
A situação de Jataí se repete em dezenas de municípios do interior brasileiro. O Brasil registrou mais de 6 milhões de casos de dengue em 2025 até maio — o segundo maior número da história. Mas a distribuição geográfica dos recursos de combate é profundamente desigual.
A desigualdade dos recursos
Um levantamento do Ministério da Saúde obtido pelo InlineBR via Lei de Acesso à Informação mostra que 78% dos recursos federais para combate à dengue em 2025 foram destinados a municípios com mais de 100 mil habitantes. Esses municípios representam apenas 22% da população brasileira.
Os municípios com menos de 20 mil habitantes — que somam mais de 3.800 no país e abrigam cerca de 15% da população — receberam 4,2% dos recursos. A lógica é administrativa: municípios maiores têm mais capacidade de elaborar projetos, cumprir contrapartidas e prestar contas. Mas o resultado é que quem mais precisa recebe menos.
"O Aedes aegypti não lê o plano de saúde do município. Ele vai onde tem água parada e calor. E no interior, tem muito dos dois." — Epidemiologista do Instituto Evandro Chagas, Belém
O que poderia mudar
Especialistas apontam três medidas que fariam diferença no curto prazo. Primeira: simplificar os critérios de acesso aos recursos federais para municípios pequenos, reduzindo a burocracia de prestação de contas. Segunda: criar um programa nacional de formação de agentes de saúde especializados em arboviroses para o interior. Terceira: garantir estoque descentralizado de insumos — larvicidas, inseticidas, kits de diagnóstico rápido — em municípios-polo regionais.
Nenhuma dessas medidas é nova. Todas já foram propostas em diferentes versões nos últimos dez anos. Nenhuma foi implementada de forma sistemática.
Em Jataí, a enfermeira-chefe da UBS do Jardim Primavera não espera por políticas nacionais. "A gente vai de porta em porta, orienta as famílias, faz mutirão de limpeza. Com o que tem. Sempre foi assim."